Durante o discurso de celebração do 46º aniversário do Partido dos Trabalhadores (PT), realizado em Salvador no último sábado (07/12), o presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi enfático ao abordar a necessidade de o partido "conquistar" o voto evangélico. Contudo, uma afirmação específica gerou perplexidade: o presidente alegou que 90% dos evangélicos seriam beneficiários do Bolsa Família. O dado, além de estatisticamente questionável, acendeu um alerta sobre o uso explícito de programas sociais como ferramenta de articulação eleitoral.
O ponto mais preocupante dessa narrativa não reside apenas no exagero dos números, mas no reconhecimento público de que uma política de Estado está sendo instrumentalizada como estratégia de poder. Ao sugerir que o PT deve dialogar diretamente com a base evangélica "sem esperar pelos pastores", Lula reforça uma visão que confunde assistência social com propaganda partidária — uma prática que deveria ser rechaçada em qualquer democracia madura.
É imperativo distinguir política de Estado de política de governo. Quando o Estado provê auxílio a cidadãos em situação de vulnerabilidade, não está concedendo um favor ou uma benevolência do governante de turno; está cumprindo uma obrigação constitucional. Tais recursos provêm dos impostos pagos pela própria população que trabalha e sustenta a máquina pública. Transformar esse direito em moeda de troca por apoio nas urnas é eticamente frágil e democraticamente perigoso.
Enquanto o Brasil não superar a mentalidade de que benefícios sociais servem para angariar votos, seguiremos distantes de ser uma nação verdadeiramente próspera e institucionalmente sólida. O país carece de estadistas que priorizem um projeto nacional consistente, e não de líderes obcecados pela manutenção do poder através do aparelhamento ideológico.
Historicamente, nações que alcançaram o desenvolvimento pleno foram conduzidas por propostas claras de crescimento econômico, fortalecimento da classe produtiva e justiça social real, e não por projetos sustentados exclusivamente no assistencialismo permanente. Uma política baseada apenas na transferência de renda, sem mecanismos que incentivem a "porta de saída" e a autonomia financeira, tende a criar dependência em vez de emancipação.
É preciso deixar um ponto bem claro: os evangélicos não são uma mercadoria no balcão do mercado eleitoral.
Muitos fiéis que recebem auxílio estatal também são amparados por suas comunidades de fé. As igrejas evangélicas desenvolvem, em todo o território nacional, um trabalho social relevante, capilarizado e silencioso — um suporte que, muitas vezes, chega onde o Estado é ausente, mas que raramente recebe o devido reconhecimento das esferas governamentais ou da grande mídia.
O que não se pode aceitar é que a carência de pessoas simples seja tratada meramente como um ativo político. Tentar manipular a fé e a necessidade social com recursos que pertencem ao povo beira o escárnio.
Felizmente, o povo evangélico tem demonstrado maturidade e discernimento. Aqueles que ainda enxergam este segmento como uma "massa de manobra" passível de ser comprada por promessas assistencialistas podem se surpreender.
Independentemente de espectro político — seja à esquerda ou à direita — qualquer movimento que não respeite a dignidade, a ética e os valores de um povo ordeiro e trabalhador está fadado ao fracasso. O recado para a classe política é uníssono e direto: o povo evangélico tem princípios e não está à venda.